Editorial: Os riscos e oportunidades da Reforma Tributária

5 de julho de 2023

Não é novidade que o Brasil tem os impostos mais complicados do mundo e que o Congresso deve aprovar sem demora uma reforma tributária. Com mais de 32 mil normas tributárias em vigor, nem mesmo fiscais, contadores e advogados tributaristas se entendem sobre quanto imposto uma empresa deve pagar. Os valores disputados entre a receita e o contribuinte chegam a R$ 5,4 trilhões, ou 75% do PIB (e 267 vezes a média da OCDE).

Esse manicômio tributário espalha diversas ervas daninhas por nossa economia. A mais imediata é obrigar os brasileiros a gastar escassos tempo e dinheiro tentando entender como pagar impostos. O sistema também cria insegurança jurídica (pois ninguém sabe muito bem se está recolhendo impostos corretamente) e dá força a atividades pouco produtivas. Por exemplo, casas pré-fabricadas, por serem produtos industrializados, pagam o dobro de impostos que a construção de casas no local, atividade que é considerada um serviço.

Considerando que as distorções se concentram nos impostos sobre o consumo, faz sentido começar uma reforma por esse ponto. A princípio, esse é o objetivo do projeto em discussão no Congresso, que deve ser votado esta semana.

O texto ainda é preliminar e deve ser alterado. Mas, em linhas gerais, a reforma pretende unificar 5 tributos diferentes (ICMS, IPI, PIS, Cofins, ISS) em um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual com legislação única. Em nível federal, será cobrado o CBS; nos estados e municípios, será aplicado o IBS.

A reforma simplifica o pagamento de impostos, desonera exportações e investimentos, e elimina a cumulatividade, ou seja, a incidência de tributos sobre tributos.

O fim da cumulatividade é essencial para a indústria nacional. Considere, por exemplo, uma fábrica de portas e janelas metálicas que compra chapas de aço como matéria-prima. A empresa paga tributos ao adquirir as chapas e paga novamente ao vender seu produto final. Com a reforma, os tributos já pagos se tornarão créditos que a fábrica poderá descontar dos impostos que deve.

Além de diminuir a carga para a indústria, a reforma cria incentivos para reduzir a sonegação, já que compradores, de olho nos créditos, devem dar preferência a fornecedores que pagaram impostos corretamente. Ao contrário dos créditos tributários atuais, que com frequência são ignorados pelos governos estaduais, a ideia é que os novos créditos sejam financeiros, caindo de imediato na conta de cada CNPJ.

Todas essas mudanças são positivas e podem contribuir para o crescimento do País. No entanto, o diabo mora nos detalhes.

Em primeiro lugar, a quantidade de exceções é preocupante. Categorias do setor de serviços, o mais afetado pela reforma, pressionam os parlamentares por isenções e reduções. Já há alíquotas diferenciadas ou isenções para setores inteiros, indo de prêmios na loteria até atividades artísticas. Sem uma base sólida, é provável que o novo sistema seja emendado e deteriorado ao longo dos anos, assim como aconteceu com o PIS/Pasep, a Cofins e o ICMS.

O mesmo se aplica à manutenção de regimes especiais, como a Zona Franca de Manaus. Como seria possível migrarmos para a tributação no destino, ou seja, no local onde os bens são consumidos, quando é exatamente a tributação na origem que permite a existência desses regimes?

Também há o risco de aumento da carga tributária. A PEC estabelece uma alíquota única, mas não especifica qual será essa alíquota. Uma forma de evitar o aumento da carga tributária foi apresentada em 2019 pelo então deputado federal Alexis Fonteyne (NOVO-SP). A emenda 44 cria um gatilho automático para reduzir as alíquotas caso a arrecadação aumente acima do crescimento do PIB, limitando a carga tributária total a 28% do PIB.

Por fim, há a preocupação dos estados com a perda de autonomia. O projeto prevê a criação de um Conselho Federativo para centralizar a arrecadação dos estados e municípios, concedendo poderes para criar normas, regulamentos e até propor leis. Estados populosos, como Minas Gerais, podem ter o mesmo poder de voto de estados menores.

Para resolver esse impasse, há algumas opções em jogo. Uma delas é manter a arrecadação descentralizada nos estados e fiscalizar as transferências devidas entre eles. Outra seria alterar a estrutura do Conselho Federativo, dando mais peso à população dos estados no poder de decisão.

Os deputados precisam resistir à pressão de grupos organizados tendo uma certeza em mente: a carga tributária total que os brasileiros pagam não pode, de modo algum, aumentar. Simplificar é importante, mas isso não deve servir de desculpa para aumentos de impostos.

Confira outras publicações do Editorial da Semana

Receba nossas

novidades por

email!







    Visão geral de privacidade

    Este site usa cookies para melhorar sua experiência enquanto você navega pelo site. Destes, os cookies categorizados conforme necessário são armazenados no seu navegador, pois são essenciais para o funcionamento das funcionalidades básicas do site. Também usamos cookies de terceiros que nos ajudam a analisar e entender como você usa este site. Esses cookies serão armazenados no seu navegador apenas com o seu consentimento. Você também tem a opção de desativar esses cookies. Mas a desativação de alguns desses cookies pode afetar sua experiência de navegação.