Você banca seu rival no futebol

Você banca seu rival no futebol

Autor:


por João Ferreira

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Criada em 1861 pelo imperador Dom Pedro II, a então Caixa Econômica da Corte, a Caixa Econômica Federal é um banco estatal. E em tempos de crise econômica, desde o governo Dilma, muito dinheiro foi alocado numa inegável paixão nacional: o futebol. Fosse um banco privado, não haveria problema algum, porém não o é. O dinheiro da estatal não deveria ser gasto com um esporte que pode se manter sozinho, já que tem um mercado imenso — milhões de torcedores — e uma demanda que a iniciativa privada deveria ter interesse em investir. Se esta não investe, ou não cobre a oferta da Caixa, não deveria ser o Estado a pagar por isso. O fato do Estado ter de colocar recursos no futebol vai na contramão do que é feito no mundo inteiro, onde empresas privadas pagam — e caro — para patrocinar diversos clubes, esperando, com isso, retorno às suas marcas.

Pode-se argumentar que a Caixa precisa competir com os bancos privados e que esta forma de publicidade é justificável e gera retorno ao banco e até ao país. Eu discordo, porque acredito que a maioria dos brasileiros, inclusive os fãs do futebol, se pudessem optar, certamente prefeririam que o banco estatal investisse em outras áreas. E digo isso mesmo sendo botafoguense fanático (por coincidência meu time foi o último contemplado com este ‘mimo’ do governo).

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Com o slogan: “Se a vida pede mais futebol, nós entramos em campo”, a Caixa se orgulha de ter injetado, só em 2016, R$146,5 milhões em patrocínio aos clubes. E cria ainda uma justificativa um tanto quanto curiosa, quando diz: “[…]representar a inclusão da cultura brasileira e do compromisso com a sociedade usando o futebol com elemento de integração social econômica.” — creio que “elemento de integração social econômica” é um jeito romântico de dizer: “nós usamos o seu dinheiro, pagador de impostos, para isso“.

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Tudo começou, no governo Dilma ainda na presidência, em 2012, com o patrocínio do banco ao Corinthians, cujos valores, à época, não foram revelados. O time juntou-se ao Atlético-PR e ao Figueirense como beneficiário da Caixa, com contrato até 2014 e que se estende até hoje. Sabe-se, no entanto, que hoje o clube paulista recebe a maior verba da Caixa: R$30 milhões por ano.

Em 2014, eram 14 times patrocinados pela estatal, hoje são 19. Em 2014, o valor total era de R$100 milhões, hoje, como já dito, é de R$146,5 milhões (um aumento de quase 50%).

Confira a lista dos clube e o valor recebido por cada um:

Corinthians – R$ 30 milhões
Flamengo – R$ 25 milhões
Cruzeiro – R$ 12,5 milhões
Atlético-MG – R$ 12,5 milhões
Sport – R$ 6 milhões
Vitória – R$ 6 milhões
Atlético-PR – R$ 6 milhões
Coritiba – R$ 6 milhões
Figueirense – R$ 4 milhões
Chapecoense – R$ 4 milhões
CRB (Série B) – R$ 1 milhão
Bahia (Série B) – R$ 2 milhões (por 6 meses)
Vasco da Gama – R$ 7,5 milhões
Botafogo – R$ 1,4 milhão (por 3 meses de contrato — já negocia R$17 mi para 2017)
Fluminense – R$ 1 milhão (por 3 meses)
Náutico – R$ 1,4 milhão (por 4 meses)
Paysandu – R$ 600 mil (por 4 meses)
Goiás – R$ 1,5 milhão (por 5 meses)
Atlético-GO – R$ 2 milhões

Além destes, o Santos já está em negociações avançadas para conseguir patrocínio do banco em 2017, com expectativa de R$15 milhões por ano.

Tudo isso sem entrar a fundo nos estádios que, em sua esmagadora maioria, são construídos pelo Estado, com nosso dinheiro.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, na temporada de 2015 da NFL, o valor de patrocinadores privados foi de US$1.2 bilhão, confira as marcas:

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A presença da Caixa, no futebol, já no governo Temer, continua a todo vapor. E não há o menor indício de que isso irá parar. Afinal, qual time abriria mão destes valores? Se a iniciativa não partir do próprio governo, para cortar a fonte que jorra recursos, tudo continuará como está e os valores, a cada ano, estarão ainda maiores.

Um país que não define sua prioridades de investimentos não tem a menor possibilidade de dar certo.


João Ferreira é jornalista, músico, empreendedor e botafoguense.


Os textos refletem a opinião do autor e não necessariamente do Partido Novo.

 


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