Viva o nosso carnaval sem igual

junho 20, 2017 6:43 pm

por Victor Grinbaum (publicado originalmente em página pessoal)

samba


Tom Jobim dizia que só havia três nacionalidades de música popular genuinamente originais: “A brasileira, a cubana e a americana. O resto é polca”. Ele se referia aos três estilos – e suas variações – que consagraram o cancioneiro daqueles três países: o samba, a rumba e o jazz. E dos três, apenas um ainda é popular e se renova constantemente na sua terra de origem: o samba.

O Brasil faz samba (com este nome) desde a primeira década do século passado. O primeiro disco com a palavra samba no selo saiu há exatos cem anos. Mas o que no início não passava de maxixe com um compasso ligeiramente diferente ganhou corpo e vida próprios. E um século depois de a Casa Edson do Rio de Janeiro lançar Pelo Telephone (de cuja letra tomei emprestado o título deste artigo), o Brasil ainda produz e consome samba feito pãozinho quente, enquanto que nos Estados Unidos as novas gerações nunca ouviram falar em jazz. Outra: nenhum gênero musical é mais autorreferente. Faça uma pequena regressão e veja quantos sambas têm a palavra “samba” em suas letras.

Tudo isso é meu nariz de cera para falar do artigo que Zuenir Ventura publicou n’O Globo do último sábado. O texto se chama “Não deixe o samba morrer”, numa referência… à letra de um famoso samba. Em resumo, Zuenir reclama da decisão de Marcelo Crivella de reduzir pela metade o repasse financeiro da Prefeitura às escolas de samba para o carnaval de 2018.

O samba é mesmo um ritmo sui generis. Não bastasse ser o mais longevo, é o único que foi estatizado. Nem o mambo cubano se tornou um instrumento de propaganda de um regime como o nosso samba. E para entender isso é preciso regredir uns 80 anos e desembarcar nos anos 30; mais exatamente no período varguista. Havia naquele tempo um jornalista de O Globo (olha aí!) chamado Mário Filho, que editava o caderno de esportes do jornal. Quando chegava o período do carnaval, ele ficava sem ter do que falar, já que todos os clubes interrompiam suas atividades atléticas para se dedicarem aos bailes em suas sedes sociais. Mário Filho pensou muito e percebeu que as escolas de samba – então as primas pobres do carnaval – podiam render assunto. E como ele editava um caderno de esportes, nada mais interessante que fazer com que as escolas competissem entre si, disputando uma taça… Ops!, digo, um prêmio. Mário criou os quesitos de avaliação, escolheu o júri, e assim nasceu o primeiro desfile organizado, tal como é realizado ainda hoje. Nos dias anteriores ao carnaval ele já tinha assunto para encher seu caderno (os preparativos, entrevistas com os sambistas e passistas, os temas, o samba enredo etc.) e nos dias seguintes, enquanto o país inteiro – inclusive os jogadores de futebol – se curavam da carraspana, ele recheava a linguiça falando da escola campeã, das comemorações na favela, dos destaques, piriri, pororó… Mário Filho, depois de morto, deu seu nome ao Maracanã, mas bem que poderia batizar também o Sambódromo.

E onde entra a política? Simples: desde o primeiro certame, para agradar ao regime, Mário Filho incluiu uma cláusula pétrea nas regras dos desfiles: os enredos só poderiam falar de temas e acontecimentos 100% brasileiros. O que fez com que as escolas se esforçassem ao máximo para exaltar os tiradentes, chicas-da-silva e dons-pedros da vida. E se alguma ala ou carro alegórico trouxesse uma faixa bem grande e brilhante dizendo SALVE O DR. GETÚLIO VARGAS, bem, quem iria reclamar de uns pontos extras diante de tão magnífica exaltação à pátria? Sem falar que aquele carnaval simetricamente organizado como um desfile militar, com alas, carros e uniformes remetia às paradas que agitavam os corações em Roma, Berlim e Moscou.

Tempos depois, sem o Pai dos Pobres na área, as escolas de samba viraram um grande negócio para a contravenção dos subúrbios e favelas cariocas, sem jamais deixarem de prestar seu quinhão de gratidão à empresa familiar que tanto as ajudou. Tanto que em 1984, quando aconteceu o primeiro desfile no Sambódromo, Leonel Brizola deu um jeito de sacanear seu arqui-inimigo concedendo o privilégio de transmissão à concorrente Rede Manchete. Foi uma falseta que Roberto Marinho jamais perdoou ao seu até então cordial confrade Adolpho Bloch. Que há décadas também lucrava com a cobertura impressa dos desfiles para sua revista.

Resumo do desfile: escola de samba é business. Deixou de ser manifestação popular há muitos anos. Uma namorada de cantor de pagode que queira virar madrinha de bateria paga algumas centenas de milhares de reais pelo privilégio. Uma ex-BBB que deseje ser destaque num carro alegórico desprende algo na casa das dezenas de milhares. Qualquer fantasia numa ala tem preço. Amigos do rei, ou melhor, do bicheiro, têm direito aos melhores camarotes. Redes de supermercados distribuem ingressos nas arquibancadas às mancheias. A Rede Globo segue monopolizando a transmissão dos desfiles, e ainda deu um jeito de exportar o formato para São Paulo. É a “festa popular” mais elitista, restrita e artificial do mundo, cujo lucro vai para uma tal “Liga Independente” historicamente envolvida em maracutaias e cuja contabilidade é mais misteriosa que o Triângulo das Bermudas.

Zuenir Ventura teme que o samba possa morrer apenas porque o prefeito cortou metade dos repasses do dinheiro do povo que vai para as burras de bicheiros e empresários. Outros anteveem o estabelecimento de uma teocracia evangélica no Rio de Janeiro, com bloquinhos cantando louvores gospel em Ipanema. O que eu vejo é apenas uma meia justiça em andamento: dinheiro dos impostos não deve ser usado para o baticundum de socialites e pseudo-celebridades. Crivella deveria era cortar 100% da verba da Prefeitura, aplicando-a naquilo que a Prefeitura realmente tem o dever de financiar. Por exemplo, a limpeza pós-blocos, com seus oceanos de mijo despejados pelas ruas.

Zuenir errou na escolha de seu samba. Que passa muito bem, obrigado. Ele deveria era cantar uma marchinha: Me dá um dinheiro aí. É o que certamente estão cantando no andar da diretoria do jornal onde o famoso jornalista labuta.


Victor Grinbaum é jornalista e escritor.


Os textos refletem a opinião do autor e não, necessariamente, do Partido Novo.

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